Entrevista: O psiquiatra e psicoterapeuta cristão Augusto Cury ensina como livrar a mente da ansiedade

O psiquiatra e psicoterapeuta, que já vendeu mais de 20 milhões de livros no Brasil, conta como ser feliz no presente e lidar com a ansiedade do que vem por aí…

Chamada de SPA pelo escritor, a Síndrome do Pensamento Acelerado é fruto de uma sociedade onde as informações não param de chegar. O resultado: estamos sempre inquietos, sem foco e sofrendo por antecipação.

CONSELHOS O psiquiatra Augusto Cury. Ele escreveu 35 livros e vendeu mais de 90 milhões de exemplares (Foto: Silva Junior/Folhapress)

CONSELHOS: O psiquiatra Augusto Cury. Ele escreveu 35 livros e vendeu mais de 90 milhões de exemplares (Foto: Silva Junior/Folhapress)

Augusto Cury estuda o cérebro humano há mais de 30 anos. Desde o final dos anos 1990, escreve livros relacionados a seus conhecimentos sobre memória e construção do pensamento – misturados com uma boa dose de análise de comportamento. No lançamento de Ansiedade: como enfrentar o mal do século (Editora Saraiva), sua 35ª obra, ele apresenta a síndrome do pensamento acelerado, que considera mais nociva que a depressão. “O bombardeio de informações e atividades intelectuais gerou uma sociedade ansiosa, que sofre por antecipação”, diz. 

Ele dá nome novo para um drama velho, que só se agrava. O psiquiatra e psicoterapeuta Augusto Cury chama de síndrome do pensamento acelerado, ou SPA, a torrente de conversas que a mente mantém com a gente, em meio ao frenético burburinho de informações que não param de chegar. O resultado é uma sociedade de hiperpensantes, sempre inquietos, sem foco e sofrendo por antecipação.

O próprio Cury já se disse atormentado pelas ferveções mentais – e há mais de 30 anos, pesquisa táticas para ganhar a guerra contra elas. Esse é o tema do seu 35º livro, Ansiedade – Como Enfrentar o Mal do Século (Saraiva). 

Assista:

Augusto Cury fala sobre Ansiedade como enfrentar o mal do século

Poucas palavras que significam muito, um pouco sobre a Síndrome do Pensamento Acelerado (SPA) e o mais recente livro, Ansiedade como enfrentar o mal do século.

Entre viagens e palestras, o médico e escritor parou na sua Colina, interior paulista, e respondeu às perguntas a seguir.

O que caracteriza essa síndrome?

Cury – A SPA é produzida por uma hiperconstrução de pensamentos, numa velocidade tão alta que estressa e desgasta o cérebro. O resultado emocional é desastroso, há consequências para o corpo e a mente. Pensar é bom. Com consciência crítica, é excelente. Mas pensar excessivamente e sem gerenciamento é uma bomba contra a mente livre.

E impede o desenvolvimento de funções da inteligência, como refletir antes de reagir, expor e não impor ideias, exercer a resiliência, colocar-se no lugar do outro. Os sintomas da SPA: fadiga, dores de cabeça e musculares, irritabilidade, sofrimento por antecipação, dificuldade para trabalhar com pessoas lentas, transtorno do sono e déficit de memória.

Por que o senhor diz que a síndrome suplanta a depressão?

Cury – Segundo a Organização Mundial da Saúde, 20% das pessoas estão deprimidas. Já a SPA ocorre, provavelmente, em 80% de adultos, crianças e adolescentes. Em conferências no Brasil, nos Estados Unidos, na Espanha, Sérvia e Romênia, tenho feito um teste e os resultados são os mesmos: as pessoas apresentam três ou mais sintomas.

A SPA tem traços semelhantes aos da hiperatividade, como inquietação, dificuldade de concentração e de elaborar experiências. Por isso, muitos médicos confundem os dois transtornos e prescrevem indiscriminadamente ritalina (derivado da anfetamina, que estabiliza a dopamina e a noradrenalina no cérebro, atenuando a agitação e melhorando a concentração).

Um erro crasso. Os professores também estão perdidos. Para aliviar a ansiedade das crianças com SPA, são necessárias atividades lentas e elaboradas, contato com a natureza, pintura, tocar instrumentos, praticar esportes e jogos com desafios.

Onde o senhor tem visto mais pessoas ansiosas: na família, nas empresas, festas noturnas, redes sociais?

Cury – Nas famílias, religiões, empresas, universidades. Não há oásis nas sociedades modernas. Steve Jobs não sabia, mas os smartphones cativam a emoção e estimulam a edição veloz de pensamentos, gerando inclusive dependência psíquica.

Tire o celular de um jovem por um dia e a dependência aparece: ele fica mais ansioso, intolerante a contrariedades, com humor depressivo e num tédio mordaz. A internet trouxe grandes ganhos, mas contatos superficiais. Ali, raramente a pessoa se relaciona com alguém em profundidade e, pior, com ela mesma. Tenho falado sobre a necessidade de desintoxicação digital. Pais têm de dar limites aos filhos – eles não deveriam usar o celular o dia todo nem ficar presos a games.

Por que o mundo se tornou um lugar de hiperativos?

Cury – Pelo excesso de informações não elaboradas, compromissos, pressões e uso de computador. No passado, o número de informações dobrava a cada dois séculos; hoje, a cada ano. O exagero de dados é registrado involuntariamente por um fenômeno inconsciente – o registro automático da memória, ou RAM.

Uma criança de 7 a 10 anos guarda mais dados do que um filósofo grego quando seu país estava no auge.

Segundo o livro, o pensamento acelerado rouba a qualidade da emoção e envelhece o psiquismo. Qual é a explicação?

Cury – A mente hiperexcitada empobrece a emoção rapidamente. Há milhões de jovens envelhecendo, com dificuldade de contemplar o belo, de ver a própria existência como um espetáculo. Ocorre uma contração da autoestima. A geração da era da indústria do lazer é a mais triste de que se tem notícia.

Por que diz que estamos morrendo mais cedo emocionalmente, embora vivamos mais tempo biologicamente?

Cury – É um paradoxo. Vivemos o dobro do tempo em relação ao homem da Idade Média, quando uma amigdalite podia ser fatal. Apesar de a expectativa de vida ter crescido, a SPA leva à morte precoce do tempo emocional. Não o sentimos passar; os meses voam. Um dos desafios é dilatar o tempo, fazer muito do pouco, gastar horas com aquilo que o dinheiro não compra. Mas não sabemos lidar com isso. Temos varanda e não sentamos nela para conversar. Temos jardim e não vemos as flores.

Por que o senhor sugere duvidar, criticar e determinar como uma forma de desacelerar o pensamento?

Cury – É uma técnica psíquica e pedagógica. A dúvida, a crítica e a determinação estratégica são princípios de sabedoria. O Eu, que representa nossa capacidade de escolha e consciência crítica, deve fazer, em silêncio, uma higiene mental todos os dias: duvidar das falsas crenças, criticar cada pensamento perturbador e autodeterminar o relaxamento.

Como neutralizar a ansiedade num tempo em que tudo é rápido e efêmero? É preciso ajuda profissional para isso?

Cury – Há o transtorno de ansiedade generalizada, o stress póstraumático e, agora, a ansiedade na SPA, que descrevo. Torna-se quase impossível debelar a ansiedade doentia em meio a tantas urgências. Mas não se deve ser carrasco de si mesmo nem se autopunir: é possível gerenciá-la com técnicas que protegem a emoção e o pensamento, como a ajuda de um profissional.

O que o senhor considera pensar em excesso?

Cury – Excesso de informação, de trabalho intelectual, de atividades diárias, de preocupações; excesso do uso de smartphones e games. Isso tudo estimula fenômenos cerebrais e inconscientes que acessam a memória com uma velocidade nunca antes vista. Costumo chamar um desses fenômenos de autofluxo. Ele tem como objetivo acessar a memória milhares de vezes para trazer imagens mentais e pensamentos. Com o excesso, a mente humana fica superexcitada e acaba sofrendo um desgaste sem precedentes. A sociedade moderna, consumista e rápida, nos faz adoecer coletivamente. Nos tornamos reféns de nossa mente. 

Quais são os sintomas dessa doença?

Cury – Os clássicos são acordar cansado, ter dores de cabeça e musculares, transtornos do sono e deficit de memória. Em casos mais agudos, as pessoas se aborrecem com a lentidão alheia. Ficam irritadas quando o computador demora a ligar. Ou não conseguem lidar com pessoas mais lentas do que elas. Não são capazes de parar e contemplar a paisagem, a natureza, uma flor. Não param para jogar conversa fora na varanda.

São as pessoas que estão sempre com pressa.
Cury – Estão sempre sofrendo por antecipação. O pensamento rápido demais e sem gerenciamento é responsável por esse tipo de sofrimento, que atinge qualquer um, de crianças a idosos, alunos e professores, profissionais liberais e empresários. Os melhores profissionais fazem velório antes do tempo. Esse tipo de profissional é ótimo para suas empresas, mas carrasco de si mesmo. Sofrem pelo futuro de maneira dramática.

Crianças também têm pensamento acelerado?

Cury – Nós as submetemos a um trabalho intelectual escravo cada vez mais cedo. Estamos cometendo o assassinato coletivo da infância. Isso acontece em todas as sociedades modernas. Ficamos estarrecidos com armas químicas, destruição em massa, mas não nos chocamos com o assassinato da infância. Os ministérios da educação de todo o mundo estão errados ao avaliar os alunos pela assertividade de dados na prova. Se quisermos formar pensadores, devemos avaliar também a capacidade de cooperação, de debater ideias, o altruísmo, a capacidade de pensar antes de reagir, de se colocar no lugar dos outros. São esses elementos que determinarão a qualificação desses alunos e futuros profissionais. Mas a educação está pautada por bombardear a memória dos alunos com excesso de informações, em detrimento do pensamento crítico, de aprender a ser autor de sua própria história.  Os executivos do mundo inteiro são contratados por suas competências técnicas, mas 80% deles são demitidos por falta de habilidades comportamentais.

Esse tal pensamento acelerado na infância tem algo a ver com os diagnósticos de hiperatividade, comuns hoje em dia?

Cury – A hiperatividade tem um componente genético. Uma criança hiperativa provavelmente tem um dos pais com histórico de ansiedade. Ela acontece em 1% das crianças. A síndrome do pensamento acelerado tem sintomas parecidos, por isso a confusão e os diagnósticos errados. Faltam estudos sistemáticos sobre a formação do pensamento e as armadilhas desse processo. A síndrome talvez seja a mais iminente.

Os pais também não são responsáveis por esse tipo de educação?

Cury – Os pais estão completamente perdidos. Acham que sobrecarregar seus filhos de atividades garante que serão adultos mais bem preparados no futuro. Eles cometem erros crassos, como dar brinquedos e roupas em excesso, incentivar o uso de games e jogos em computadores, tablets e celulares, exigir que façam múltiplas atividades. Acham que, assim, criam adultos brilhantes. Alguns até se gabam da destreza de seus filhos pequenos ao manusear um smartphone. Mas o gênio desaparecerá na adolescência. Entra em seu lugar um jovem que não sabe lidar com as perdas, nem corrigir o que deu errado, nem se colocar no lugar do outro. Eles não conseguem. E ter esse tipo de inteligência é fundamental para ter sucesso no futuro.

Que conselho o senhor daria a esses pais?

Cury – Não tenham medo. Criança tem de ter infância, brincar, ter contato com a natureza, se envolver com projetos mais lentos, como literatura. Porque agitar a mente não é garantia de nada. Quantidade de informação não é relevante para formar mentes brilhantes.

Pensar rápido tem alguma vantagem?

Cury – Não tem como não ser hiperpensante do jeito como vivemos hoje. Somos bombardeados com informações, e o registro na memória é involuntário. Nos computadores somos deuses, arquivamos o que queremos, quando queremos. Em nosso córtex cerebral não tem jeito, os registros acontecem sem nossa vontade. Uma criança de 7 anos hoje provavelmente tem mais informações que o imperador de Roma, no auge de Roma. O problema são os dados empulhados, que não são usados como conhecimento, o conhecimento que não é usado como experiência, e a experiência que não é usada como as funções complexas da inteligência: pensar antes de reagir, colocar-se no lugar do outro, ser resiliente, saber gerenciar o pensamento.

O senhor se mudou para o interior em busca de um ambiente mais tranquilo para escrever seus livros. Precisamos nos mudar para o meio do mato para desacelerar?

Cury – A síndrome atinge a todos, em todos os lugares. Não é só um problema das metrópoles. Atinge criança, adulto e idoso em todo lugar, não é coisa de metrópole. Nas cidades grandes, a logística do dia a dia é mais difícil, pode ser que haja mais violência. Mas é possível assistir a um DVD para contemplar a natureza, fazer passeios de final de semana, em parques ou no zoológico, para colocar as crianças em contato com animais e plantas. Dá para ter animais e plantas em casa. E, o principal, que não depende do lugar onde se mora: conversar. Conversem muito com seus filhos, conversas longas. Não tenham medo de mostrar seus erros, para que eles entendam que não há céu sem tempestade. 

FONTES: CLAUDIA / ÉPOCA

 

Comentário: 4Alegrai-vos sempre no Senhor; e novamente vos afirmo: Alegrai-vos! 5Seja a vossa amabilidade conhecida por todas as pessoas. Breve voltará o Senhor. 6Não andeis ansiosos por motivo algum; pelo contrário, sejam todas as vossas solicitações declaradas na presença de Deus por meio de oração e súplicas com ações de graça. 7E a paz de Deus, que ultrapassa todo entendimento, guardará o vosso coração e os vossos pensamentos em Cristo Jesus. 8Concluindo, caros irmãos, absolutamente tudo o que for verdadeiro, tudo o que for honesto, tudo o que for justo, tudo o que for puro, tudo o que for amável, tudo o que for de boa fama, se houver algo de excelente ou digno de louvor, nisso pensai. 9Tudo o que aprendestes, recebestes, ouvistes e vistes em mim, isso praticai; e o Deus de paz estará convosco. Paulo é grato à Igreja em Filipos. Filipenses 4

O esquema é muito simples: Toda vez que surgir uma preocupação, deve-se apresentá-la diante do Eterno Deus por meio da oração suplicante misturada com ação de graças, antes que essa sensação se transforme em ansiedade. A mistura de súplica com agradecimento faz bem, pois obriga a memória a enxergar e localizar as coisas boas da vida e os livramentos passados, diminuindo a tensão interna, encorajando a oração e trazendo a tranqüilidade.

O resultado não demora: a paz do Eterno Deus, “que ninguém consegue entender” (Fp 4.7, NTLH) ou “que é muito mais maravilhosa do que a mente humana pode compreender” (Fp 4.7, BV) ou “que transcende toda a compreensão humana” (Fp 4.7, Phillips), ocupará o lugar que seria da ansiedade.

A pastoral do Apóstolo Paulo é reforçada pela pastoral do Apóstolo Pedro: “Lancem sobre Ele [SENHOR] toda a sua ansiedade, porque ele tem cuidado de vocês” (1 Pe 5.7).

Tanto um como outro aprenderam com o Senhor Jesus, que mostrou a inutilidade da ansiedade (“Quem de vocês, por mais que se preocupe, pode acrescentar uma hora que seja à sua vida?”, Mt 6.27) e o cuidado do Eterno Deus (“Se o Eterno Deus veste assim a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada ao fogo, não vestirá muito mais a vocês, homens de pequena fé?”, Mt 6.30).

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